Fragmentos de uma colecção:
Colecção Privada Varzim-Sol 

18/05/2017 - 18/07/2017

  "Fazer circular a pintura, retirar as obras das paredes onde permanecem após a sua aquisição e levá-las a outros lugares e contextos, não é apenas um gesto generoso, senão que corresponde a um preceito (imperativo?) de todos os que detêm ou tutelam colecções colecções de arte. A criação artística não se esgota nem se fecha sobre si própria, o seu destino cumpre-se na sua mediação, apreciação e análise, dimensões que, em grande medida, dependem das oportunidades geradas para a sua exposição. É por isso que os coleccionadores abrem as portas dos seus gabinetes e residências e cedem as obras que possuem para que o fenómeno artístico se cumpra integralmente e o circuito cultural se realize.

   Ao mostrar 21 trabalhos pertencentes à sua coleção de arte, a Varzim Sol, empresa detentora da concessão do Casino da Póvoa, inscreve-se nesse espírito que procura criar condições para um confronto com o olhar interessado de quantos não percorrem quotidianamente as suas instalações na Póvoa de Varzim, alargando o número dos que acedem a estas obras e a estes artistas.

 

   Decorrente de uma colecção constituída, no que de mais relevante apresenta, já no século XXI, a selecção de trabalhos incidiu sobre alguns dos mais representativos, em termos históricos e estéticos, na consciência de que seria difícil abranger a sua totalidade para mostrar num espaço diferente. A opção pela pintura, também relacionada com os aspectos envolvidos nesse trânsito, resulta principalmente da constatação de que, face à escultura, é a prática mais representada. Já o domínio dos nomes portugueses sobre os estrangeiros não foi entendido como razão preferencial. Com efeito, ao desconsiderar o interesse maior do diálogo entre obras, independentemente da nacionalidade do seu autor, e ao ignorar a circunstância de aqueles últimos serem figuras destacadas do panorama internacional e elementos de prestígio na colecção, a exposição sairia penalizada.

   Antes de voltarmos à escolha e aos critérios de significado estético e alcance histórico, é importante referir que uma das fontes da colecção reside na atribuição do Prémio das Artes - Casino da Póvoa, iniciado em 2006, iniciativa que explica a presença de artistas como Nikias Skapinakis, Alberto Carneiro, Júlio Resende, Armando Alves, José Rodrigues, Graça Morais, Júlio Pomar, Julião Sarmento. O Prémio, para lá de impulsionar a colecção, confere coerência a uma das suas acções.

 

   Uma colecção é sempre um mundo incompleto de um universo maior e qualquer vislumbre sobre os seus objectos estabelece uma relação entre o que ela contém e o que fora dela existe. Sendo certo que podemos ler a colecção de arte dos Casino - ou o que dela se escolheu para mostrar agora - nos seus aspectos intrínsecos, não podemos deixar de lembrar que cada é apenas um fragmento do percurso de cada artista a remeter para outras obras contemporâneas da que está exposta, para as que a precederam e para as que lhe seguiram. Colocando o problema de outra forma: conseguiremos ler em cada trabalho, a produção do seu autor, os traços mais expressivos da sua linguagem, uma imagem familiar e a identidade pela qual o reconhecemos? De que momento do trajecto do artista nos falam? Que valores comunicam e que problemática elegeram? Em que ponto da história da arte se situam? Que conjunturas sociais, políticas e culturais interpelam?

   As respostas que cada espectador encontrará não cabem neste teto, destinado tão-só à enumeração de alguns adereços que preenchem o cenário em que actuam os artistas e à abertura de pistas de entendimento, cronologicamente arrumadas.

   Os trabalhos tardios de Júlio Resende (1917-2011), de Nadir Afonso (1920-2013) e de Júlio Pomar (1926) revelam facetas expressivas de uma geração formada nos anos 40que desenvolveu - e no último caso, ainda desenvolve - os impactos do confronto formalista figuração/abstracção que por esse tempo se discutia, resolvidos em diferentes perspectivas. A Nadir Afonso coube afirmar o poder de uma linguagem abstracta codificada, a Júlio Resende o expressionismo da representação humana e das comunidades populares, e a Júlio Pomar, a renovação formal e a releitura culta dos mitos e dos ícones de certa portugalidade que o duplo retrato explora. Karel Appel (1921-2006), figura maior do expressionismo europeu que integrou o grupo Cobra, explorou montagens de materiais tridimensionais e pintura, relevos coloridos, num espírito algo rural rude que incorpora, quer o gosto pela experimentação, quer o gosto pela desaprendizagem da arte erudita, ao encontro do primitivismo.

   São os artistas nascidos na década de 30 e com inícios de carreira no final dos anos 50 e nos anos 60, que se encontram em maior número nesta exposição, quase todos com trabalhos tardios e que, à imagem do que se referiu sobre outras obras, expressam os elementos distintivos dos seus autores. Assim acontece com Rogério Ribeiro (1930-2008), no gosto de cenas figurativas e narrativas complexas; Jorge Pinheiro (1931) no valor enigmático de uma figuração intemporal; Nikias Skapinakis (1931) com a figuração plana e a simplificação da imagem ao gosto pop; Joan Hernandez Pijuan (1931-2005) com uma obra representativa do trabalho que na década de 70 o artista realizava, tendo mais tarde, e até à actualidade, abandonado aquele rigor frio onde se insinuava um certo absurdo; Álvaro Lapa (1939-2006) com um trabalho sintomático dos diálogos com a literatura, servidos por referências que constroem espaços mentais; Ângelo de Sousa(1938-2011), na visão elementar, mas não simplista, procurou no campo do desenho; Armando Alves (1935) no rigor e na precisão formal do trabalho plástico abstracto, não isento de referências à Arte internacional do período em causa; Rafael Canogar (1935), na abstracção que apresenta as nuances da matéria e as da estrutura que surgem no trabalho exposto, a documentar, ainda, um período em que a presença de contornos de cabeças assinala referências figurativas.

   Justino Alves (1940-2015), embora nascido no virar da década, pertence ainda à geração de artistas que carregou a herança modernista nos seus valores formais, transformando-a em homenagem ou renovando e actualizando as marcas de movimentos como o cubismo. De modo muito diverso, também Jules Maidoff (1935), o americano radicado em Florença que já expôs no Porto em várias ocasiões, continuou a resgatar com a sede modernista e os seus interiores de estudo como pintor e modelo.

   Nos artistas nascidos nos anos 40, assistimos a idêntica deriva de direcções plásticas e estéticas que se verifica naqueles que nasceram na década anterior. Se Manuel Casimiro (1941), optou por uma pintura que, sem deixar de o ser, a ideia, e por um vocabulário pessoal que o trabalho da colecção evidencia, Graça Morais (1948), procurou o teor narrativo e antropológico, marcado pelos acontecimentos da sua biografia ou pelas convulsões da história recente, como no presente trabalho, e Julião Sarmento (1948) envergou por uma dimensão conceptual e por problemáticas constantes, que as figuras femininas da sua visualidade austera identificam, e que a pintura exposta denunciam.

   Nascidos no final da década de 50 ou início de 60 a pintura foi adquirindo múltiplas facetas resultantes d citações, remissões e apropriações que exigem pesquisa e determinação por parte do espectador. Encontram-se nesta situação Albuquerque Mendes (1953), com três desenhos do princípio de percurso que ainda não assinalam a obra que viria a desenvolver; Rui Paes (1957) que evoluiu de registos abstractos para uma figuração ao serviço de narrativas oníricas; Mário Bismarck (1959) que requisita modelos do passado da pintura, associados por vezes, à ironia sobre o lugar histórico e artístico, ou modelos oriundos de linguagem não pictóricas. Finalmente, José Manuel C´ria (1960) aqui representado por um trabalho da série Máscaras de la Mirada, envolveu-se em sucessivas reflexões sobre o passado artístico lido a partir da matriz contemporânea.

   Encontramos nestas 21 obras da Colecção de Arte do Casino da Póvoa  para meditar sobre os caminhos da pintura do século XX. A exiguidade do texto, na incompletude dos aspectos formais e das tendências da pintura moderna e contemporânea que inventariou, deixa o convite para seguir o caminho de cada artista e penetrar na esfera própria das suas problemáticas e intenções. "       
                                                                                                              Laura Castro